Por Laura Sánchez

“A memória das histórias e antiguidades pode permanecer entre os homens de três maneiras: por cartas e escritos, como usam latinos, gregos, hebreus e muitas outras nações, ou por pintura, como se usa quase no mundo inteiro” – José de Acosta, História naturale e morale dele Indie, 1596 –.

 

A Arte da Memória possui uma tradição muito antiga e os gregos já afirmavam que era possível fabricar imagens para preencher lugares mnemônicos. Mas não procurem a Arte da Memória entre as disciplinas acadêmicas, visto que, não faz parte de nenhuma, e do ponto de vista desta, que aqui escreve, essa é mais uma das incoerências que encontramos hoje nas grades curriculares das nossas universidades, uma vez que, a história da organização da memória perpassa por questões essenciais relacionadas à religião, ética e moral, filosofia e psicologia, arte e literatura e método científico.

Por isto, hoje o nosso passeio discursivo será pela História da Arte da Memória, iniciada pelos gregos que já preocupados na fixação da memória começaram essa arte sendo, mais uma, dentre as várias que desenvolviam. Deste modo, a arte na procura da memorização, a arte enquanto técnica de imprimir “lugares” e “imagens” na memória se torna discussão desta coluna.

A Arte da Memória surgiu na Grécia e foi depois transmitida a Roma, onde passou para a tradição europeia. Uma arte que se serviu da arquitetura de cada época para a produção dos seus “lugares de memória”. Sendo a “Mnemoténica” a técnica de estimulação da própria memória notamos que o mesmo termo provém da titânide grega da memória, Mnemosine, deusa da mitologia grega e filha da deusa Gaia e do deus Urano (CARAZZAI; WERTHEIN, 2000, p. 10).

Mnemosine personificava a memória, irmã também do Tempo (Cronos), tida como a protetora das Artes e da História e com uma íntima relação com o patrimônio cultural.

Uns dos beneficiados da Mnemônica clássica foi o professor de retórica Agostinho (354 – 430), que possuía uma memória treinada e medita deste modo sobre memória.

“Chego aos domínios e vastos palácios da memória (campos et lata praetoria memoriae), onde estão os tesouros (theauri) de inumeráveis imagens, introduzidos nela a partir de coisas de todos os tipos, percebidas pelos sentidos. Ali está guardado tudo o que pensamos, seja ampliado, reduzido ou modificado, de qualquer outro modo, as coisas apreendidas pelos sentidos; e tudo o mais que tenha gravado e armazenado, que o esquecimento ainda não tenha tragado ou enterrado. Quando entro ali, evoco de imediato o que quero que venha à luz, e prontamente algo aparece; outras coisas precisam ser procuradas por mais tempo, como se estivessem em algum refúgio mais secreto” (Confissões, x, p. 8).

Estaria aqui Agostinho já se referendo a uma memória seletiva?

A mente começou a refletir sobre a memória e se configurar na filosofia de Cícero (106 a.C – 43 a.C)  do ponto de vista de que este, além da divulgação da filosofia platônica prova que a alma tem memória. Cícero em seu De Oratore, discurso sobre oratória, discute a memória como uma das cinco partes da retórica; afirma que, a história introduz uma breve descrição do sistema mnemônico de lugares e imagens (loci e imagines) utilizado pelos retores romanos.

Para aprender os princípios básicos da Mnemônica na época, o primeiro passo era imprimir na memória uma série de loci, lugares e o mais comum era o arquitetônico. A partir dessa construção, se prestaria atenção para outros ornamentos que decoram esses espaços. Depois o sistema mnemônico sofreria modificações em contextos diversos da mão de inspirações de teóricos medievais, a exemplo de Giordano Bruno (1548 – 1600) onde os textos da Arte da Memória se transformam em verdadeiras enciclopédias.

“No mundo pré-moderno, quase inteiramente privado de sentimentos adequados para uma memorização fácil, talvez existisse uma espécie de faculdade de memorização intensa que depois se perdeu” – YATES, 1972, p. 5-6–.

Contudo, concordamos que estudos sobre memória merecem um aprofundamento histórico que perpasse desde os períodos clássicos até os atuais na busca de espaços de memória mais compreensíveis.