Por Laura Sánchez

Patrimônio cultural é o conjunto de bens, de natureza material e/ou imaterial, que guarda em si referências à identidade, a ação e a memória dos diferentes grupos sociais.

 CONDEPHAAT, São Paulo, 1982.

 

O dia 19 de setembro de 2017 amanheceu com a seguinte notícia:

Residência onde morreu Moisés Bertoni há 88 anos está á venda. Cientista faleceu em Foz em 19 de setembro de 1929, na casa de Harry Shinke, na qual foi curar-se da malária (Memória. Gazeta Diário. 19 de setembro, 2017).

 

artigo gazeta

 

 

 

Gazeta Diário. Memória. Foz do Iguaçu, 19 de setembro, 2017

 

Enquanto pesquisadora da área de História e Memória continuo sentindo estranhamento em ler notícias desta índole. Apesar de serem notícias corriqueiras que assomam timidamente ou às vezes de modo escandaloso e que se destacam, sobretudo, nos aniversários de nascimentos e falecimentos de personalidades intelectuais, assim como dos patrimônios culturais associados a estes.

É inevitável para alguns sentir impotência, tristeza e certa revolta que todo memoricídio, ou seja, apagamento histórico provoca. Por outro lado, as políticas de preservação dos Patrimônios culturais são cada vez mais presentes nos países. Hoje, mais do que nunca se considera que todo patrimônio cultural é uma representação coletiva de identidades, histórias e memórias que, de outra forma, desapareceriam no tempo e no espaço. Os patrimônios representam o que nos pertence, o que nos define como sujeitos históricos e, sobretudo, está ligado intimamente à cultura do indivíduo e da comunidade.

E surgem as perguntas, existe, de fato, a preservação da história e da memória no estado do Paraná? Quem a gerencia, quem a articula?

A casa referida que está à venda no centro de Foz do Iguaçu envolve o cientista Moisés Santiago Bertoni (1857-1929) que escolheu esta cidade não somente para viver e pesquisar, mas também para morrer. E apesar disso, são muitos os iguaçuenses que desconhecem quem é essa personalidade e quais foram suas contribuições para com esta comunidade.

Existem na atualidade dois Museus sobre o cientista: o primeiro é o Monumento Científico e Natural Nacional Moisés Bertoni, criado em 1955 e situado no Paraguai, na cidade de Presidente Franco no meio da selva do Alto Paraná, que mostra uma condição de preservação de seus livros e manuscritos precária.

Uma casa de madeira, onde a temperatura é extremamente elevada no verão e a umidade, causada pelas chuvas e pelo frio do  inverno, é intensa, provocando, gradativamente, a deterioração das obras pela falta de cuidados específicos. A triste realidade do Museu Bertoni, por muito tempo, retratou a falta de apoio, sensibilidade e abnegação das autoridades. Muitas publicações científicas foram destruídas por insetos e rasgadas por falta de zelo de alguns visitantes, além da ação proveniente do acúmulo de poeira, devido à falta de limpeza, e dos inúmeros furtos. Várias coleções de animais, insetos e instrumentos de pesquisa, utilizados por Bertoni e seu filho Winkelried, foram perdidas (BUTTURA; NIEMEYER, 2012, p. 162).

E um segundo Museu, o Museo Storico dela Valle di Blenio na Suíça italiana, inaugurado em 1979 na cidade de Lottigna, Villaggio Montano, onde o cientista nasceu. Neste museu suíço a memória do Moisés Bertoni é representada na “Sala Moisés Bertoni” onde fica evidenciada cuidadosamente a sua história e obra, assim como o valor cultural tanto para a região como para a ciência.

Um mês antes, no dia 06 de agosto de 2017, também a impressa nos surpreendeu com esta outra notícia:

 

“Suíça busca revitalizar figura de Bertoni”

 Acuerdo de hermandad entre presidente franco y Lottigna, Suiza busca un acuerdo de hermandad entre las ciudades de Presidente Franco y Lottigna, donde nació el sabio Moisés Bertoni. El embajador de Suiza y el cónsul honorario se reunieron con autoridades regionales. (ABC Color. Redação Regional, Mariana Ladaga. Paraguai, 06 de agosto, 2017).

 

ABC Bertoni

 

 

 

Dídier Pfirte embaixador suíço, e o cônsul honorário Santiago Llano, com o intendente Roque Godoy/ABC Color.

 

 

Duas notícias que ao modo de ver desta que aqui escreve, apresentam certa incoerência uma vez que, por um lado, se mostra o descaso das autoridades perante a preservação da casa que guarda um pedaço da história do cientista, e por outro, a tentativa de revitalização da figura do Bertoni através da parceria com o Museu Suíço. Assim, reflito em como essa contradição leva, mais uma vez, a cultura e a história a serem prejudicadas gravemente, pois toda vez que se apaga uma memória se priva o povo da sua identidade, das suas origens e se interrompe a transmissão histórica para as gerações futuras.