“Há compatibilidade entre o cultivo da inteligência e os afazeres domésticos?” (ARENAL, 1883, p. 121).

 

Por Laura Sanchéz

Mais uma vez, me proponho evidenciar a importância da reconstrução da História da mulher intelectual. E desta vez, o farei me transladando ao século XIX da mão de Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810–1885), considerada uma das primeiras mulheres no Brasil a publicar na imprensa suas ideias em defesa dos direitos à educação das mulheres. A preocupação maior da autora, o sonho pelo qual lutou por tanto quanto teve de energias, foi o de elevar a mulher brasileira à plenitude de suas potencialidades humanas e intelectuais. E, no entanto, inexplicavelmente, os escritos de Nísia Floresta têm permanecido inacessíveis ao público brasileiro – especialistas incluídos – desde nada menos que por mais de um século. Afora notas esparsas em compêndios de história da literatura ou em livros de referência, ela foi quase completamente relegada ao esquecimento, não tendo, desde a sua morte, mais que dois pequenos trechos reeditados. Seu discurso penetra o amplo espectro social, visto sob o ângulo da subjetividade feminina, em um tempo em que a maioria das mulheres não só não escrevia como nem mesmo recebia instrução formal.

A escritora nasceu em 1810, em Papari, Rio Grande do Norte. Seu pai era português, Dionísio Gonçalves Pinto, casado com uma brasileira, Antônia Clara Freire. Foi batizada como Dionísia Gonçalves Pinto, mas ficou conhecida pelo pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta. Nísia é o final de seu nome de batismo. Floresta, o nome do sítio onde nasceu. Brasileira é o símbolo de seu ufanismo, uma necessidade de afirmativa para quem viveu quase três décadas na Europa. Augusta é uma recordação de seu amado companheiro, Manuel Augusto de Faria Rocha, com quem passou a residir em 1828, pai de seus filhos Lívia Augusta e Augusto Américo.

Neste mesmo ano, o pai de Nísia havia sido assassinado no Recife, para onde a família havia se mudado. Em 1831, ela dá seus primeiros passos nas letras, publicando em um jornal pernambucano uma série de artigos sobre a condição feminina. Do Recife, com o esposo, a pequena Lívia, sua mãe, e duas irmãs, Nísia foi para Porto Alegre (RS), onde se instalou e dirigiu um colégio para meninas. A Guerra dos Farrapos interrompeu seus planos naquela cidade e Nísia resolveu fixar-se no Rio de Janeiro, onde fundou e dirigiu o Colégio- Augusto, notável pelo alto nível de ensino.

Em 1849, sua filha Lívia, nessa época com 19 anos, sofreu uma queda de cavalo e os médicos lhe recomendaram uma “mudança de ares”, e se muda para Europa. No dia 2 de novembro de 1849, embarcaram a mãe, a filha e o filho Augusto Américo, na galera francesa Ville de Paris, com destino ao Havre, na França. Esta foi uma viagem de certo modo definitiva, pois, à exceção de dois curtos intervalos, nunca mais a autora voltou ao Brasil para aqui fixar domicílio. Durante os anos seguintes, permaneceu na Europa onde publicou suas obras em italiano e em francês (VALADARES, 1989, p. 9).

Foi em Paris que morou por mais tempo. Em 1853, publicou Opúsculo Humanitário, uma coleção de artigos sobre a emancipação feminina, que foi merecedor de uma apreciação favorável de Auguste Comte, pai do positivismo, com que manteve uma amizade.

Nísia faleceu em Rouen, na França, aos 75 anos, em 1885, de pneumonia. Foi enterrada no cemitério de Bonsecours. Em setembro de 1954, quase 70 anos depois, seus despojos foram transladados para o Rio Grande do Norte e levados para sua cidade natal, Papari, que já se chamava Nísia Floresta. Primeiramente foram depositados na igreja matriz, depois foram levados para um túmulo no sítio Floresta, onde ela nasceu (DUARTE, 1995).

Até chegar a História dos Annales falar de história da mulher era falar de “história da exclusão”. A produção da história da mulher se deu a partir de um conhecimento desconhecido e baixo um olhar principalmente masculino.

A condição da mulher do século XIX é pesquisada através do estudo histórico propriamente dito, como de algumas obras literárias que revelam o ambiente e os cenários oitocentistas, detalhando situações das mulheres no âmbito doméstico e na vida pública. Começando, pois, o recorrido historiográfico da mulher na história da mão de Priore, estudamos que já desde a Reforma protestante e a Contra-Reforma católica, introduzido mais austeridade nos costumes, se dá um tom severo nos discursos, e a mulher torna-se alvo preferido dos pregadores que subiam ao púlpito para acusá-la de luxúria.

Uma abundante produção de obras elogiosas encobria o pretexto de melhor domesticar a mulher dentro do casamento e para tal fim se fazia necessário eleger um modelo feminino de corpo obediente e recatado de carnes tristes (PRIORE, 1997, p.16).

A mulher estava sujeita ao marido, devia respeitá-lo e obedecê-lo, caso contrário, este poderia castigá-la como se merecia segundo a própria lei régia[2].

O papel adjudicado à mulher foi a constituição da família, como eixo de difusão da Fé católica, assim como o papel da mulher enquanto propagadora do catolicismo, que irá inspirar os pregadores coloniais.

Aparentemente elas têm uma casa que governar, um marido ao que satisfazer e uns filhos que educar na virtude religiosa, mas na verdade o que elas possuem é um modelo de educação confundido com domesticidade, com servidão e com submissão patriarcal.

A autora e educadora nordestina Nísia Floresta passou trinta anos morando na Europa e na sua obra Opúsculo Humanitário (1853, p. 32-33), faz uma interessante comparativa das mulheres europeias com as brasileiras:

 

“[…] viu as mulheres europeias como úteis membros da sociedade, como magníficas educadoras dos jovens, tanto em casa como nas escolas, assim como companheiras inteligentes de seus maridos. Em contraste, as mulheres brasileiras não podiam comparar-se, nem na fortaleza de caráter nem na moralidade, com suas irmãs, europeias e norte-americanas, porque eram vítimas do preconceito e da opressão duma existência enclausurada, do analfabetismo e serviam só para a procriação”.

 

Pode-se dizer que a mulher brasileira registrada pela autora, não tinha direito a uma vida própria, quanto menos a uma intelectualidade manifesta.

A realidade educativa da mulher do século XIX estava baseada em adquirir conhecimentos para a realização dos serviços domésticos com eficácia, visto que as meninas que frequentavam os colégios geralmente ao completarem 13 ou 14 anos eram tiradas pelos pais, pois já estavam aptas o casamento (DUARTE, 1995).

Esses conhecimentos eram voltados exclusivamente para a aprendizagem das tarefas domésticas e cuidados do lar e do futuro marido e filhos e nunca poderiam extrapolar para uma instrução intelectual.

A mulher se converteria em uma ameaça para a sociedade patriarcal desde o momento em que adquirisse uma educação igual a do homem, pelo menos assim eles o manifestavam. Quando não, argumentavam que, a mulher era inferior em natureza e não teria condições de receber instrução intelectual.

Passados 132 anos, ainda hoje a mulher é considerada um ser inferior ao homem. Claros exemplos são os salários mais baixos das mulheres versus homens, a preferência por algumas empresas de contratar o gênero masculino, a proibição em algumas culturas ao prazer sexual da mulher mediante a amputação do clitóris e o maior número de homens que de mulheres nas universidades. Assim, infiro que, são precisas ainda de muitas Nísias Florestas neste mundo.

Em 1989, a Revista Brasileira de História publicou um número inteiramente dedicado ao tema da Mulher, intitulado “A mulher no espaço público” (v.9, n.18) e organizado por Maria Stella Martins Bresciani. Em sua apresentação, a organizadora dizia ser esta uma “história da exclusão” (Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 27, nº 54, p. 281-300 – 2007).

Num processo paulista de divórcio em 1756, o juiz aconselha ao marido: “Fazendo a mulher o contrário de amar e respeitar o marido é permitido a este reger e aconselhar sua mulher, e ainda castigá-la moderadamente se merece…” se o castigo não for humano ministrado pelo marido, ele será divino (PRIORE, 1997, p. 17).